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É falso que nenhum paciente medicado com cloroquina foi a óbito ou necessitou de internamento 

 

 

18 de setembro de 2020 

 

Circula nas redes sociais a notícia em que a deputada estadual pernambucana Clarissa Tércio  relata uma suposta experiência de trabalho, feita de forma voluntária por um grupo denominado “Doutores da Verdade”, que auxilia o tratamento de pessoas infectadas com o novo coronavírus em Pernambuco. A deputada divulga as atividades do grupo, que conta com pneumologista, dermatologista e enfermeiro. De acordo ela, foram realizados 591 atendimentos com 29 profissionais envolvidos diretamente nesses atendimentos, sendo utilizada a hidroxicloroquina em 80% dos casos, além de ivermectina, azitromicina e zinco.

 

A manchete diz ainda que “a prova da eficiência da medicação é tamanha, que nenhum paciente atendido foi à óbito ou necessitou de internamento, muito pelo contrário, temos relatos de diversos pacientes totalmente recuperados. Me sinto parte integrante dessa equipe, parabenizo os mesmos e apoio esse projeto que tem salvado vidas”. Ainda segundo texto, o público-alvo do “Doutores da Verdade” é composto principalmente por pessoas que não têm acesso fácil ao tratamento de saúde. Os medicamentos foram administrados de forma precoce, dentro de três dias após o início dos primeiros sintomas e, além dos voluntários, os pacientes que tinham disponibilidade também foram atendidos pelos médicos do grupo. 

 

A deputada segue dizendo que, “a medicação é uma aliada importante, quando usada precocemente, conforme relatam médicos experientes que fazem uso dela nessa pandemia, inclusive, o Conselho Federal de Medicina autorizou – com algumas restrições ao uso –, bem como no Estado de São Paulo, já está sendo ministrado o referido medicamento”. 

 

 

Entretanto, após a grande repercussão de tais ações, o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) está investigando a conduta dos médicos que participam do programa “Doutores da Verdade”, que promovem a dispensação desses medicamentos em bairros periféricos do Recife, informando pelas redes sociais onde serão realizados os atendimentos. 

 

Por sua vez, o Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou o parecer nº 04/2020, que estabelece critérios e condições para a prescrição de cloroquina e de hidroxicloroquina em pacientes. 

 

Após analisar extensa literatura científica, a autarquia reforçou seu entendimento de que não há evidências sólidas de que essas drogas tenham efeito confirmado na prevenção e tratamento dessa doença. Contradizendo a deputada Clarissa Tércio, o pneumologista, alergologista e imunologista Antônio Aguiar Filho, um dos médicos responsáveis pela ação que visita comunidades da Região Metropolitana do Recife, afirma que um grupo de 200 pessoas já foi atendido gratuitamente em ações que aconteceram no Alto José Bonifácio, na Avenida Norte, na Muribeca e no Centro de Jaboatão. Desse total de pacientes atendidos, de acordo com o médico, “um óbito foi registrado e três pessoas precisaram ser internadas”, mas se recuperaram da doença e as outras 196 foram curadas. Sendo assim, as declarações da deputada são falsas. Dois estudos publicados no dia 22 de julho pela revista "Nature" apontaram que a cloroquina e a hidroxicloroquina não são úteis no tratamento da Covid-19, a infecção causada pelo novo coronavírus. 

 

Em um dos artigos, o medicamento antimalárico falhou em apresentar efeito antiviral contra a Covid-19 em macacos. Já outra pesquisa não encontrou efeitos da cloroquina nas células pulmonares infectadas pelo vírus em laboratório. 

 

No maior estudo realizado até agora com a hidroxicloroquina no país,  sob a coordenação de nove instituições renomadas como: Hospitais Albert Einstein, HCor, Sírio-Libanês, Moinhos de Vento, Oswaldo Cruz e Beneficência Portuguesa de São Paulo, além do Brazilian Clinical Research Institute e Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva, publicado pelo The New England Journal of Medicine, verificou-se que a hidroxicloroquina associada ou não ao antibiótico azitromicina, não tem eficácia no tratamento de pacientes internados com quadros leves e moderados de Covid-19. 

 

Segundo o cardiologista Renato Lopes, pesquisador e professor da Unifesp e da Duke University, que também participou do estudo, “outros estudos internacionais já mostraram que ela não tinha eficácia para casos graves, mas muitos críticos diziam que ela não havia funcionado porque foi administrada muito tarde, quando o paciente já estava em estado grave, mas demonstramos que, mesmo quando o tratamento é precoce e os casos, leves, não há eficácia”. 

 

O estudo brasileiro é do tipo RCT, sigla em inglês para estudo clínico randomizado controlado, considerado "padrão ouro" em pesquisas médicas por seu rigor. Em trabalhos assim, participam dos testes clínicos pacientes divididos aleatoriamente em grupos — aquele que recebe o tratamento em teste e o chamado grupo controle, que recebe apenas um placebo para comparação. Neste caso, 667 pessoas com quadros leves ou moderados de covid-19 foram divididas em três grupos: um que recebeu hidroxicloroquina associada à azitromicina (217 pessoas); outro que recebeu apenas hidroxicloroquina (221 pessoas); e o grupo controle, que recebeu apenas o tratamento padrão para a doença (229), prescrito pelos médicos. 

 

A maioria dos pacientes teve diagnóstico de COVID-19 confirmado pelo chamado teste molecular, ou PCR, mas alguns casos foram identificados pelo critério clínico (sintomas avaliados por médicos). Usando uma escala com sete possíveis desfechos para estes casos (conforme abaixo), após o início do tratamento por sete dias, os pesquisadores concluíram que a hidroxicloroquina, isolada ou associada à azitromicina, praticamente não fez diferença no curso da doença. Ao 15º dia após o início dos tratamentos, os pacientes foram classificados por seu estado de saúde segundo avaliação dos médicos — em uma escala de gravidade do estado dos pacientes: 

· 1. Paciente em casa sem limitações às atividades habituais; 

· 2. Paciente em casa com limitações às atividades habituais; 

· 3. Paciente hospitalizado sem necessidade de oxigênio; 

· 4. Pacientes hospitalizado com necessidade de oxigênio; 

· 5. Pacientes hospitalizado necessitando de ventilação mecânica não invasiva ou cânula de alto fluxo; 

· 6. Paciente hospitalizado necessitando de ventilação mecânica invasiva; 

· 7. Óbito. 

 

Os percentuais de pacientes em cada nível da escala foram muito semelhantes em todos os três grupos, mostrando a invariabilidade dos tratamentos testados. Por exemplo, na classificação 1, a mais leve, estavam 69% dos pacientes que receberam hidroxicloroquina e azitromicina; 64% dos que receberam apenas hidroxicloroquina; e 68% daqueles no grupo controle. Na faixa 7, de óbito, a distribuição foi respectivamente 2%, 3% e 3% entre os pacientes de cada grupo. 

 

*Checagem realizada por Fernando Meirinho Domene, Rafaela Naomi Takahashi Osawa e Victor Nascimento Cunha, alunos do curso de Especialização em Saúde Coletiva do Instituto de Saúde, na disciplina de Comunicação e Saúde. A edição foi realizada pela equipe do Núcleo de Comunicação Técnico-Científica do IS. 

 

Referências 

 

Clarissa Tércio sobre cloroquina: “Nenhum paciente veio à óbito ou necessitou de internamento <https://portaldeprefeitura.com.br/2020/07/15/clarissa-tercio-sobre-cloroquina-nenhum-paciente-veio-a-obito-ou-necessitou-de-internamento/> Acesso em 3 de set de 2020 

Cremepe investiga médicos que atuam em caravanas contra Covid-19 em comunidades, com apoio de deputada <https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2020/05/13/cremepe-investiga-medicos-que-atuam-em-caravanas-contra-covid-19-em-comunidades-com-apoio-de-deputada.ghtml> Acesso em 3 de set de 2020 

Cremepe investiga médicos que distribuem hidroxicloroquina no Recife, com o apoio da deputada Clarissa Tércio <https://jc.ne10.uol.com.br/politica/2020/05/5609277-cremepe-investiga-medicos-que-distribuem-hidroxicloroquina-no-recife--com-o-apoio-da-deputada-clarissa-tercio.html> Acesso em 3 de set de 2020 

Hidroxicloroquina chega às comunidades <http://www.impresso.diariodepernambuco.com.br/noticia/cadernos/vidaurbana/2020/05/hidroxicloroquina-chega-as-comunidades.html> Acesso em 3 de set de 2020 <http://www.cremepe.org.br/2020/05/20/hidroxicloroquina-chega-as-comunidades/> Acesso em 3 set de 2020 

CFM condiciona uso de cloroquina e hidroxicloroquina a critério médico e consentimento do paciente <https://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=28672:2020-04-23-13-08-36&catid=3> Acesso em 3 de set de 2020 

Dois novos estudos publicados na 'Nature' mostram que a cloroquina e hidroxicloroquina são ineficazes no combate à Covid-19 <https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/07/22/dois-novos-estudos-publicados-na-nature-mostram-que-a-cloroquina-e-hidroxicloroquina-e-ineficaz-no-combate-a-covid-19.ghtml> Acesso em 3 de set de 2020 

Cloroquina: estudo brasileiro 'padrão ouro' reforça evidências mundiais de que medicamento é ineficaz, dizem autores https://www.bbc.com/portuguese/geral-53522399> Acesso em 3 de set de 2020 

“Nenhum paciente atendido foi a óbito'' <https://www.opiniaocritica.com.br/ciencia-e-saude/nenhum-paciente-obito-deputada-uso-cloroquina/?fbclid=IwAR3yTIpbwgrhPkyKXPZrBKjbfHeYPNfG1cxqDUSPqRvsKWElDsLBIOb2yM> Acesso em 3 de set de 2020 

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